Por Cláudio Gonçalves
Introdução
Cristo
comissionou aos seus seguidores a pregar o seu Evangelho por todas as nações, batizando-os
e instruindo-os até que ele voltasse. Mas para executar essa difícil tarefa Ele
prometeu a sua presença pessoal, divina, diária e poderosa entre eles.
Assegurando-lhes que seriam capacitados com poder para cumprirem essa grande
missão. Então, com base em sua autoridade soberana sobre os céus e a terra eles
foram chamados e capacitados a fazer discípulos por onde fossem. Teriam os
discípulos de Jesus confiança, ousadia e coragem para executar tamanha tarefa
hoje?
A
presença de Jesus
Na Grande
Comissão os discípulos são ordenados a espalhar o evangelho das boas novas por
todo o mundo em nome e sob a autoridade e poder de Jesus. A responsabilidade
deles não é fácil: ir, fazer discípulos de todas as nações, depois batizá-los e
instruí-los. Por outro lado, eles não são deixados para cumprir esta grandiosa
tarefa sozinhos. O Senhor Jesus, ressuscitado e exaltado, promete estar com
eles no seu cumprimento; não ocasionalmente, mas para sempre. Ele mesmo afirma
“que estarei com vocês todos os dias até o fim dos tempos” (Mateus 28.20).
Aquele, a quem toda a autoridade e poder foi confiada, é aquele que se
compromete com os seus seguidores dando-lhes total garantia e confiança na
promessa de estar com eles sempre.
Como comenta
Calvino, Cristo prepara os seus discípulos para receberem e executarem a tarefa
de serem embaixadores da salvação eterna, estabelecer o reino de Deus na terra,
governar a igreja de Deus e levar os homens ao céu. Mas, jamais conseguiriam se
não fosse a graça e o poder do seu Espírito concedida. Portanto, somente a
glória de Cristo e a plenitude do seu Espírito que forma e capacita aqueles que
ele mesmo designa para sua igreja. Assim, todo aquele a quem Cristo chama para
o seu ofício ele também os adorna com todos os dons espirituais necessários.
Os
Evangelhos começam com a certeza de que quando Jesus veio à terra, Deus estava
com o seu povo (conforme Mateus 1.23), e termina com a promessa de que a
própria presença de Jesus nunca deixará de estar com aqueles que fielmente
seguirem os seus passos. Os seguidores irão perceber, primeiramente, que além
de ter uma companhia maravilhosa ao longo de sua vida, eles sempre terão a
ajuda de uma pessoa poderosa que estará sempre com eles – Cristo, a segunda
pessoa da trindade. Portanto, há uma presença pessoal, poderosa e confortante
entre os que seguem o seu caminho.
Entretanto,
a presença de Jesus entre seus discípulos além de ser pessoal é também de cunho
espiritual.4 A sua presença corporal estava confinada à duração da sua vida
terrena, mas a sua presença espiritual não está sujeita às mesmas restrições;
pois o Emanuel, Deus conosco, habita entre o seu povo de forma divina e eterna.
Isto significa que no coração desta nova comunidade de fé estará o próprio
Senhor ressuscitado através do seu Espírito (como ele mesmo havia predito em
Mateus 18.20). Porque Ele é aquele que possui e controla toda a autoridade e
poder no céu e na terra; e seus discípulos são agora alimentados diariamente
por sua presença espiritual constante entre eles.
A autoridade
de Jesus
Não somente a
presença, mas a autoridade de Jesus é essencial para a missão. Ele mesmo diz
que, “toda a autoridade me foi dada no céu e na terra” (Mateus 28.18). Isso
quer dizer que antes que o mundo fosse criado, o Pai delegou toda a autoridade
ao seu Filho, incluindo a de rei e juiz. E agora, ressuscitado, ele aparece
como rei supremo. O seu reino nunca fracassará nem desaparecerá; pois o seu
reinado é eterno. Esta declaração faz referência ao profeta Daniel (7.13-14),
onde diz que "como o filho do homem" é "dado autoridade, glória
e poder soberano" eternamente. Entretanto, essa autoridade lhe foi
concedida por Deus. Isto também é percebido por causa da forma passiva do verbo
"foi dado”, demonstrando que esta autoridade e poder originam-se
diretamente do próprio Deus. Por isso, esta declaração tem sido considerada,
segundo Grant Osborne, como a "entronização do Messias como governante e
juiz escatológico".
Como governante
juiz, a autoridade que Jesus detêm também foi enfatizada por toda a Escritura,
principalmente nos Evangelhos. Ele mesmo diz que "todas essas coisas me
foram dadas por meu Pai" (em Mateus 11.27). Sua autoridade foi destacada
em várias ocasiões, incluindo as seguintes passagens: Lucas 6.17-19 (autoridade para curar todos);
Marcos 1.22 (autoridade em suas palavras); Mateus 8.9 (autoridade para
comandar); Lucas 8.26-39 (autoridade sobre os demônios).
E ainda, Marcos
2.1-12 (autoridade para perdoar pecados); Mateus 10.1 (designação de sua autoridade
aos discípulos); Mateus 13.41 (autoridade para julgar); Lucas 20.1-8 (autoridade
de Deus para realizar suas obras), dentre outras. Isso implica que, aquele que
foi entregue ao poder dos outros, em sua humilhação, é agora aquele que exerce
poder e controle sobre tudo e todos. Confirma-se então que a sua afirmação de
autoridade em Mateus 28.18 fornece assim o fundamento básico para a Grande
Comissão.
E este exercício
fundamental e bem definido de autoridade é dado à Ele como a vindicação culminante
de sua humilhação (conforme Filipenses 2.5-11). Assim, Ele tomando a forma de
servo, se humilhou e se esvaziou sendo obediente até a morte de cruz; e então,
por isso, Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu um nome acima de todo nome.
Essa autoridade foi-lhe conferida na pessoa do Mediador; portanto, toda a
autoridade do Pai é mediada no Filho. O seu reino de autoridade e domínio
torna-se enfim um ponto de virada na história da redenção do seu povo para
sempre. O servo sofredor (de Isaías 53) torna-se então senhor supremo de todos.
Por fim, esta
autoridade é indiscutível e aplicável em todos os lugares, ou seja, ela é
absoluta e universal. Seu reinado serve agora, segundo D. A. Carson, como um
marcador escatológico inaugurando o início de sua missão universal. Isto não é
porque o seu ensino e as suas obras tinham menos autoridade do que o que ele
diz e faz hoje; as suas palavras, como as de Deus, não podem passar (conforme
Mateus 24.35). Em vez disso, os círculos em que ele agora possui controle total
são expandidos de tal forma que eles abrangem a totalidade do cosmos. Portanto,
por causa deste poder total e universal, seus discípulos são capazes de ter
confiança que seu Senhor está no controle do destino soberano de "todas as
coisas no céu e na terra".
O poder do
Espírito Santo
Além da sua
presença e autoridade, Jesus assegura aos seus discípulos que eles também serão
dotados de poder celestial, um poder muito maior e mais nobre que os poderes
terreno. O poder pelo qual, de fato, a pregação se torne eficaz e possam
continuar a obra que Jesus começou a realizar aqui na terra. Este poder é dado
pelo Espírito Santo que concede a capacidade para articular o seu ministério
com ousadia e coragem. É um poder sobrenatural para dinamizar os seus
discípulos para cumprir a Grande Comissão.
Este termo
“poder” aparece dez vezes no livro de Atos dos Apóstolos, às vezes referindo-se
a milagres ou efeitos de poder. Três vezes (2.22; 8.13; 19.11) significa
milagres; três vezes é usado como poder que produz milagres (3.12; 4.7; 10.38);
duas vezes, refere-se ao poder com que os apóstolos (4.33) e Estêvão (6.8)
agiram e falaram. Esse termo expressa a importância de equipar a igreja para a
missão. Assim, como comenta Darrel Bock, a principal atividade do Espírito
Santo enfatizada por Lucas é, portanto, o empoderamento das testemunhas para a
missão, pois a missão é o ministério central da Igreja.
O evangelista
Lucas insistiu nesta promessa de “poder”, repetindo-a tanto em Lucas (24.49, quando
promete “que eles seriam revestidos do poder que vem do alto”); como em Atos
(1.8, quando diz que “recebereis poder, ao descer sobre vocês o Espírito Santo,
e serão minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e
até os confins da terra”). Assim, de forma enfática, ele refere-se ao poder do
Espírito para os agentes de Deus na execução da missão da igreja (conforme
Lucas 4:18-19; 24:45-48 e Atos 2:17-18).
O apóstolo João
também enfatiza essa concessão do Espírito como a capacitação para a missão dos
discípulos, dizendo que Ele “soprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito
Santo” (20.22). Este poder “soprado” sobre os discípulos é considerado como um
símbolo da “respiração” que demonstra a transmissão da vida; aqui, portanto, a
participação na vida de Cristo através do Espírito é dada aos seus seguidores.
Consequentemente,
este poder de Deus é também destacado nas cartas do apóstolo Paulo (como por
exemplo em Romanos 1.4; 15.13, 19; 1 Coríntios 2.4; Efésios 3.16 e 1 Tessalonicenses
1.5). Portanto, a função primária do Espírito Santo no Novo Testamento é então
capacitar todos os cristãos para a missão dada por Cristo. Nota-se então que o
foco dos textos sagrados está em certos líderes (especialmente Pedro; Estêvão;
Filipe; João; Paulo e seus companheiros); entretanto, essa capacitação é doada
também a todos os crentes de todas as épocas.
Alguns textos do
Antigo Testamento também falam da força física do Espírito (conforme Juízes
14.6, 19; 15.14 e 1 Samuel 11.6,7); e, por vezes, chamando-o de “espírito de
poder” (como em Miquéias 3.8 e Zacarias 4.6). Todavia essa gama de evidências
de poder implica que todos os crentes serão empoderados pelo mesmo Espírito
para contribuírem para a mesma tarefa. Ou seja, todos aqueles que são
regenerados pelo Espírito serão capacitados por ele mesmo para anunciar o
Cristo ressurreto a todos os povos.
Entretanto, os
dois grandes exemplos de sucessão de poder do Espírito Santo para realizar a obra
de Deus estão nas narrativas de imagens proféticas do Antigo Testamento. A
primeira envolve o grande legislador Moisés, que é sucedido por seu servo
Josué. E a segunda imagem é a sucessão profética de Eliseu concedida pelo seu
mestre Elias (conforme Deuteronômio 34.9 e 2 Reis 2.9, 14-22). Subtende-se
então que aos seguidores de Jesus será dado uma “porção dobrada” do Espírito e
o “manto” de sua profecia lhes será acessível para proclamarem o Evangelho de
Deus.
Finalmente, o
senhor Jesus sempre foi o nosso maior modelo e fundamento para a missão. Pois
assim como Jesus tinha sido ungido no seu batismo com o Espírito Santo e poder,
assim os seus seguidores agora devem ser igualmente ungidos e habilitados a
prosseguir a sua obra. Logo, o envio do Filho pelo Pai serve então como modelo
e fundamento para o envio dos discípulos pelo Filho. Lembrando que Jesus orou
ao Pai pelos seus discípulos (em João 17.17-19) para que eles fossem santificados
pelo Espírito Santo; e assim consagrados como Jesus foi, seus seguidores são
agora enviados como ele também foi enviado.
Notamos por fim
que o propósito essencial da igreja é na verdade levar adiante a sua missão,
continuando a obra que Jesus recebeu do seu Pai. Então, Ele mesmo deu poder aos
seus discípulos, que foram enviados para falar e agir em seu nome. Assim como o
Espírito o tinha capacitado para sua própria missão; Jesus, como diz Thomas R.
Schreiner, que é o portador do Espírito, tornou-se também o dispensador do
Espírito aos seus discípulos. Então, por esta transferência do Espírito, os
cristãos tornaram-se agora herdeiros e sucessores do ministério terreno do seu
Cristo. Por isso, o próprio Jesus serve como o exemplo para a obra do Espírito
em capacitar os seus seguidores para realizar a sua missão.
A confiança em
Deus
Percebemos então
que a presença, a autoridade de Jesus e o poder do Espírito Santo fornecem
confiança em Deus a todos os crentes no exercício e cumprimento do seu chamado.
Este poder sobrenatural foi certamente a base e a audácia dos discípulos para
levar adiante o ministério do seu Senhor por todo o mundo (conforme Atos 2.29;
4.13). No entanto, no momento desse pronunciamento, eles ainda não estavam
certos da forma e da proporção que esta presença e poder tomaria. Mas o livro
de Atos demonstrou claramente isso: que como, no poder do Espírito, eles foram
levados a testemunhar e espalhar a semente do Evangelho até aos confins da
terra (conforme Atos 1.8; 5.32). Assim, no e por meio do Espírito Santo, o
Cristo ressurreto esteve e estará sempre presente com os seus comissionados e
lhes apoiará no cumprimento da sua missão com poder e confiança plena nele.
Embora hoje,
muitos, como Graig S. Keener19 aponta, parecem ter perdido o senso do propósito
da presença e autoridade de Jesus entre eles, que é a total confiança na
realização da missão; talvez porque perderam de vista a importância e a
urgência da Grande Comissão. Entretanto, a igreja fiel não pode perder a
sensação da realidade que o Deus conosco está sempre presente: governando,
capacitando, acompanhando e auxiliando os seus discípulos; até mesmo nos seus
maiores desafios com suas lutas, dúvidas, finanças, saúde ou perseguição
religiosa.
Com estas
declarações de sua presença autoridade e poder, o Senhor Jesus deu aos seus seguidores
toda a confiança necessária para desempenharem o seu ofício – que é a responsabilidade
de confirmar a fé no seu “Evangelho de todas as épocas”. Certamente, como
comenta João Calvino,21 eles não teriam coragem suficiente para assumir esse
cargo “tão árduo” e com toda essa magnitude. E muito menos nenhum progresso
dessa obra seria possível sem esse apoio sobrenatural e imprescindível. Mas,
agora eles sabem que seu defensor está sentado no trono no céu, e que todo o
poder nos céus e na terra foi delegado à Ele. Por isso, conscientes que o seu
Mestre está no controle do mundo; agora, eles devem seguir firmes e confiantes
para obedecer ao seu chamado e enfrentar qualquer forma de oposição.
Por isso, Cristo
confia o seu ministério aos seus seguidores e lhes dá a garantia e a certeza de
que eles terão proteção celestial. Essa segurança é dada àqueles que receberam
a ordem de prometer a vida eterna oferecida pelo governante soberano, divino e
verdadeiro do universo. E essa garantia é apoiada pela autoridade do Monarca,
que sustenta e controla o céu e a terra em virtude do seu poder. Sendo assim,
diz Calvino, eles não devem considerar suas próprias habilidades; mas, em vez
disso, colocar toda a sua fé no "poder invencível daquele sob cuja
bandeira eles lutam".
Concluímos que as
declarações sobre a presença, a autoridade e o poder de Jesus na missão, que as Escrituras nos atestam, devem inspirar coragem e confiança aos cristãos
de todas as épocas; e assim permitir que a igreja militante continue no mundo
sendo equipada e encorajada para sua grande comissão – uma missão que
continuará até a consumação dos séculos. Assim, a sua presença e poder na
obediência do chamado oferecerão segurança, força, paz, alegria e esperança aos
discípulos até a aurora final. Portanto, cumpramos a ordem de fazer discípulos
por todas as nações para a sua glória até que ele venha.
Conclusão
Cristo
comissionou os seus seguidores a pregar o seu Evangelho por todas as nações,
batizando-os e instruindo-os até que ele voltasse. Mas para executar essa
difícil tarefa Ele mesmo prometeu a sua presença pessoal, divina e poderosa
entre eles; assegurando-lhes que seriam capacitados com poder sobrenatural para
cumprirem essa grande missão. Então, com base na autoridade soberana do seu
Senhor sobre os céus e a terra eles foram convocados a fazer discípulos por
onde fossem.
O êxito dessa
grande comissão estava inextricavelmente ligado à presença, poder e autoridade
de Jesus entre eles. Os discípulos sabiam que jamais teriam algum sucesso se
confiassem apenas em suas próprias capacidades humanas. Então eles se firmaram
na realidade espiritual da companhia diária do seu Senhor para executarem esse
ofício de tal magnitude. Certamente eles precisariam do poder do Espírito
Santos sobre eles para os capacitar e lhes dar coragem e confiança no
cumprimento dessa tarefa, mesmo nos momentos mais difíceis.
Aplicação
A igreja de Jesus
não pode deixar de cumprir a sua missão de levar as boas novas até aos confins
da terra; sempre confiantes que a presença poderosa da segunda pessoa da
trindade estará com eles sempre, mesmo nos seus piores momentos de dúvidas e
insegurança. Perder o sentido dessa presença e autoridade é perder o sentido da
vida e perder de vista o chamado da grande comissão. Cabe então aos crentes
hoje confiar plenamente e no poder do Espírito Santo obedecer ao seu
comissionamento de levar essa poderosa mensagem de salvação a todas as pessoas,
seja atravessando a sua rua ou atravessando o Continente.
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